sábado, 7 de outubro de 2017

Catalunha a ferro e fogo


Ultimamente, temos assistido a cenários de violência entre os nossos vizinhos espanhóis que julgávamos arredados da vida social e política dos povos ocidentais. Na cena internacional, têm-se destacado os acontecimentos que opõem a Catalunha ao Estado central espanhol. Companheiros que somos no espaço ibérico, o que ocorre de relevante na vizinha Espanha interessa-nos sobremaneira.
Houve tempos em que também nós tivemos de fazer frente ao gigante hegemónico em que Castela se transformara para nos ser concedido o direito a decidir sobre os nossos próprios destinos. E em parte, devemo-lo também à Catalunha. De facto, a guerra dos Segadores (ceifeiros) ― nome por que ficou conhecida a rebelião catalã no venturoso ano de 1640 ― impôs à Espanha a mobilização de tropas para o conflito. Quem acabou por triunfar com essa desatenção de Castela ao lado ocidental da península fomos nós que, em dezembro do mesmo ano, pudemos proclamar a independência do país ― após sessenta anos de submissão ao governo filipino. Nos últimos meses, temos assistido a mais uma afirmação da alteridade catalã no contexto de uma Espanha comandada por um governo tido para muitos catalães como “estrangeiro”.
A ideia de secessão da Catalunha terá alguma legitimidade? Para respondermos com algum acerto a tal questão, convém percorrermos os tortuosos caminhos da história e os titubeantes caminhos da lei.
No ponto 3 do artigo 7.º, a Constituição Portuguesa reza assim: “Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão.” O texto constitucional parece não levantar grande margem para dúvidas. Na ordem interna portuguesa, o país está obrigado a reconhecer o direito dos povos não só à autodeterminação como inequivocamente à independência. E enquanto se lavrava o texto constitucional, tal direito foi reconhecido no processo de descolonização dos povos que estavam sob a nossa tutela.
Dir-se-á que a Catalunha não é uma colónia da Espanha, motivo pelo qual se não aplica tal direito. Não será, sobretudo por causa da relativa autonomia de que goza (coisa que só recentemente aconteceu). Mas ainda assim a Catalunha pode percecionar a sua situação como afim de um processo colonial com séculos de história. Afinal ainda está sujeita à ordem jurídica espanhola e às autoridades centrais de Madrid. Veja-se como atuaram as autoridades centrais quando decidiram que o referendo não poderia realizar-se, enviando para o território catalão forças policiais exteriores que se não podiam confundir com as forças de autoridade interna.
Avancemos agora um pouco mais. O teor do artigo 7.º da Constituição Portuguesa não é, de forma alguma, apenas o resultado das boas intenções da Assembleia Constituinte saída da revolução dos cravos. Tem os seus fundamentos na ordem jurídica internacional. Na verdade, o direito dos povos à autodeterminação ― ou seja, a decidirem acerca dos seus destinos sem estarem sob tutela de nenhum outro ― foi consagrado na Carta das Nações Unidas[1] (1945), ainda que interpretado de maneira algo limitada ―, reafirmado nos dois pactos internacionais de direitos[2] (1966), bem como noutros documentos internacionais. Mas, sobretudo, nas sucessivas resoluções da ONU que foram aclarando e alargando o âmbito do conceito em questão.
A aplicação deste direito está dependente da vontade expressa dos povos que reivindicam uma identidade específica e se sentem ilegitimamente subjugados a autoridades estranhas. Não se trata, pois, de impor uma independência que os povos em questão rejeitem à partida, mas de criar condições para que possam adquiri-la, na medida em que o pretendam. É por isso que vários plebiscitos têm sido realizados para verificar se a independência corresponde ou não à vontade popular[3]. Foi assim em muitos países (veja-se, a título de exemplo, o caso de Timor) e foi assim também recentemente na Escócia, onde o resultado foi negativo, mas o estado central teve a abertura democrática para permitir que o povo escocês se pronunciasse acerca de uma possível independência. Tal sensatez britânica parece não ser partilhada pelo governo central dos nossos vizinhos espanhóis!
Que a Catalunha é realmente uma nação parece-me indubitável. Tem uma cultura própria, tem um território específico e, sobretudo, tem uma língua que os distingue dos demais povos com que partilha o espaço ibérico. Essa alteridade tem sido ao longo dos séculos afirmada pelos próprios, através de sucessivas reivindicações de independência. Contudo, tais iniciativas nunca tiveram grande sucesso, uma vez que o movimento centrípeto que Castela encabeçou levou sempre a melhor sobre os anseios catalães. E se no passado se percebe, embora se não justifique, que assim tenha sido, hoje, contudo, num tempo em que se espera vigorem os mais lídimos princípios democráticos, não seria expectável que assim fosse. Infelizmente, estamos longe de ter alcançado aquele estádio de humanização pelo qual todos sonhamos! A Espanha é um estado democrático moderno. O reconhecimento dos princípios básicos da liberdade e da autodeterminação dos povos que dela fazem parte deveria estar suficientemente consolidado para que se não assistisse a qualquer pretensão de impor aos demais a própria vontade hegemónica. O que aconteceu recentemente na Catalunha é próprio de um estado autoritário, mas não decerto de uma democracia madura e consolidada.
Dir-me-ão que um estado de direito tem de garantir que a lei seja respeitada por todos e em todas as situações. Respondo que em princípio assim deverá ser. Mas não sempre! A tensão entre legalidade e legitimidade ética jamais será apagada e forças democráticas que o sejam autenticamente reconhecem-no e aceitam-no. Regressemos ao que a nossa constituição despudoradamente afirma: “o direito à insurreição contra todas as formas de opressão”. Ou seja, é a própria lei fundamental de um país que reconhece o direito de, em determinadas circunstâncias, a ação humana contrariar os princípios legais inscritos nas ordens jurídicas internas. Dito de outra forma: a lei não é absoluta. É, portanto, relativa. Existe em função do bem das pessoas e não em função da defesa de determinados condicionamentos ideológicos que impõem aos outros um fardo que eles não estão dispostos a suportar. A lei (e o governo que a aplica e garante) existe em função do povo e não o povo em função da lei, como Cristo afirmou a respeito do Sábado. É por isso que nenhuma consciência moral está sujeita a uma lei iníqua. Aliás, exige a consciência ética que todo o ser humano se insurja contra leis arbitrárias ou perversas. Por isso, nenhuma norma é absoluta por princípio.
O princípio da relatividade da lei vale também para as constituições dos estados. Se fossem objetos dotados dessa sacralidade que alguns lhes querem atribuir, não teriam sofrido alterações significativas, como a história se encarrega de nos ensinar. É esse o motivo pelo qual não basta escudarmo-nos na estrita aplicação da lei para estar justificada toda a ação humana, inclusive a ação daqueles que nos governam no exercício da sua tarefa política. É preciso que a autoridade não se exima a um exame permanente sobre a legitimidade ética e a adequabilidade da lei, tendo em conta a situação histórica em que se encontra. E caso verifique ― decerto através de um processo de diálogo que é sempre necessário em contextos democráticos e do qual jamais estamos autorizados a desistir ― a inadequação do texto legal, esteja disposto a modificá-lo. Ora foi exatamente o contrário aquilo que sucedeu com o governo espanhol. Perante a reivindicação de um referendo sobre a independência, escudou-se na lei, recusou-se ao diálogo e respondeu com a força bruta face à reação pacífica de um povo que apenas pretendia ser ouvido nas suas aspirações (bem sei que há outros interesses menos genuínos de determinados grupos, mas nenhum deles suprime o direito dos povos a ser ouvido na questão crucial da sua autogovernação).
Se o estado central houvesse tido uma atitude dialogante e se tivesse mostrado disposto a alterar a constituição no sentido de permitir a auscultação popular, com toda a probabilidade a maioria do povo catalão teria votado pela permanência no espaço político da Espanha, ainda que com um maior grau de autonomia. Mas quando as posições se extremam, as vontades tendem a agudizar os seus pontos de vista e a tornar impossível qualquer acordo entre as partes em conflito. É assim a natureza humana. E é pena que o senhor Rajoy ― um homem que infelizmente não parece ter perdido certos tiques franquistas ― não tenha entendido isto mesmo! Num período de tanta convulsão, a Espanha teria merecido um governante com outra estatura política e humana. Alguém que não fosse assaltado pelo medo de perder o controlo da situação, reagindo consequentemente com a força das armas, mas se dispusesse ao diálogo franco e democrático com todas as partes implicadas. Infelizmente, o rei de Espanha, pessoa de quem tenho a melhor impressão, não se demarcou desta inaceitável forma de gerir os destinos de um país.
Perguntar-me-ão de faz sentido, nos tempos que correm, a pulverização dos estados em nome de identidades regionais. Tal questão pressupõe que o nosso tempo valoriza mais a unidade entre os povos do que a afirmação nacional das especificidades de cada uma. Estou inteiramente convencido de que as sociedades humanas caminham no sentido da unidade global. Creio que o futuro será a supressão de todas as fronteiras, que todos os seres humanos poderão deslocar-se para onde desejarem, uma vez que o mundo é a nossa casa comum. A divisão dos territórios em fatias indicia a presença de um dos mais doentios de todos os males que afetam a humanidade: a cobiça; ou seja, o desejo de conquistar e adquirir para si, excluindo os demais, a maior porção possível do planeta em que vivemos. Creio que haverá ― não sei quando, porque as mentalidades precisam do seu tempo para se modificarem ― um único governo mundial, democrático, que não imporá aos outros senão o que for estritamente obrigatório para a sã convivência entre as pessoas e os povos. Vejo que esse caminho tem sido trilhado através dos acordos (comerciais ou outros) entre nações. A União Europeia é um caso flagrante de itinerário para a unidade. E todos sabemos como foi decisivo tal processo na pacificação das relações internacionais na Europa e no mundo.
Porém, nenhum destes itinerários de unidade poderá ser imposto. Terá de decorrer da vontade livre de cada povo. Ainda que não concorde com a decisão do povo britânico quanto à saída da União Europeia, defendo acerrimamente o seu direito a decidir o que achar melhor para si mesmo, mesmo que tal decisão se revele catastróficas. Alguns argumentam que Portugal perdeu muito com o facto de se ter separado politicamente do restante espaço ibérico. Não sei se isso é ou não verdade (não pouco sobre mundos hipotéticos). Mas mesmo que assim fosse, prefiro ser um pouco mais pobre e garantir a minha independência e liberdade do que ter à minha disposição as fartas panelas do Egito, mas sob a alçada de uma tutela em que me não revejo. Seja como for, seremos sempre nós a tomar as opções centrais sobre a nossa vida e a suportarmos todas as consequências que daí derivem. Por isso, não vejo como se possa negar ao povo catalão esse direito básico e inalienável.
Defendo, portanto, intransigentemente, o direito dos catalães a serem auscultados na sua vontade soberana. E se o texto constitucional espanhol o não permite, pior para o texto constitucional, porque o erro está do lado da lei e não do lado do povo catalão. Mude-se, pois, a lei, que aparentemente é o único impedimento ao exercício desse direito. Infelizmente, o grande óbice não é a lei. Esta é apenas um pretexto que os defensores da união a todo o custo invocam para subjugar os outros à sua vontade omnipotente e indiscutível. Não perceberam que não há nada (ou quase nada) de realmente indiscutível! Serão coveiros da sua própria cegueira. E amanhã a história há de recordá-los como partidários de conceções derrotadas pela verdade que a história vai paulatinamente desvendando.



[1] Ponto 2 do artigo 1.º: “Os objetivos das Nações Unidas são: 2) Desenvolver relações de amizade entre as nações baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal”. Cf. também o artigo 55.º e artigo 76.º
[2] Refiro-me ao Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e ao pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Veja-se o ponto 1 do artigo 1.º de qualquer dos pactos: “Todos os povos têm o direito a dispor deles mesmos. Em virtude deste direito, eles determinam livremente o seu estatuto político e asseguram livremente o seu desenvolvimento económico, social e cultural.”. Veja-se igualmente o ponto 3 do mesmo artigo.
[3] Consulte-se a este respeito o seguinte sítio: https://pt.wikipedia.org/wiki/Referendo_de_independência.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Algumas questões ambientais

A ascensão de Trump à presidência dos EUA veio colocar na ordem do dia a questão ambiental. Infelizmente, pelos piores motivos. Os EUA, um dos maiores poluidores do mundo, declararam, pela voz do seu presidente, a intenção de romper com o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. Os motivos são conhecidos: os interesses das grandes companhias petrolíferas, que dominam a economia americana. É de novo o lucro a ofuscar o pensamento e a ação política, pondo em causa os interesses do planeta em que vivemos (e, de acordo com os conhecimento atuais, o único em que podemos viver) e, consequentemente, os interesses da própria humanidade. Em nome de um suposto bem-estar, inteiramente dependente das piores pulsões que se aninham no coração humano, a geração atual nem pestaneja quando toma decisões que hão de hipotecar o destino das gerações futuras. Mais uma vez, as decisões não são tomadas tendo em conta uma visão de longo alcance, mas a mesquinhez do aqui e agora que reduz o mundo ao próprio quintal e a humanidade ao indivíduo e aos seus interesses imediatos.
No seu encontro com Trump, o papa, num gesto profético, ofereceu-lhe um exemplar da excelente encíclica que escrevera sobre o ambiente (Laudato si’). Não era expectável que isso demovesse um homem como Trump, cujas ideias fixas são impermeáveis aos conselhos de gente avisada. Declarou posteriormente que iria trabalhar pela efetivação da paz no mundo, de acordo com o que o papa propusera. Mas como é possível a paz num mundo fustigado por profundas alterações climáticas que impõem secas severas em determinadas regiões do planeta enquanto temporais sucessivos inundam outras, provocando mortes e estragos profundos no tecido económico? Os conflitos derivados da falta de água, as deslocações de inteiras populações por causa da escassez de bens essenciais, a condenação à morte de milhares de seres humanos devido a tais catástrofes não fazem prever que o caminho da paz seja possível. Não basta resolver conflitos de origem política para que o mundo viva em paz. Novos conflitos, agora derivados de cataclismos ambientais, surgirão se não cuidarmos atempadamente das causas a montante.
Felizmente, nem tudo são más notícias. Alguns estados dos EUA vieram tomar posição nesta contenda, opondo-se à estreita visão da presidência federal (como os tribunais o haviam feito na questão da imigração). Na verdade, há toda uma indústria que se foi desenvolvendo em torno das energias renováveis e a aposta na produção de energia a partir destas fontes alia interesses económicos a sustentabilidade do planeta. É um dos muitos casos em que o desenvolvimento económico não se opõe à natureza. Bem pelo contrário: direciona os seus objetivos para a preservação do sistema-Terra ao mesmo tempo que promove novas formas de emprego, novas aplicações tecnológicas derivadas de investigação científica de ponta e riqueza económica, sem beliscar o equilíbrio instável em que a vida se desenvolve e reproduz.
Só uma educação persistente ― que inclua os planos ético, estético e ecológico ― podem fazer a diferença. Só uma opinião pública ciente dos problemas que afetam a humanidade pode servir de contrapeso, em sociedades abertas e democráticas, a interesses obscuros que a classe política poderá ousar defender em determinadas circunstâncias.

Um dos tópicos que considero mais relevantes na questão ambiental é de natureza antropológica. Com o advento da chamada “civilização”, o ser humano afastou-se decisivamente da natureza, abandonando a consciência de pertença ao meio natural. Do ponto de vista antropológico, concebeu-se cada vez mais como sujeito distinto do mundo, ou até mesmo dele separado. O mundo natural não é já o meio necessário à sobrevivência da humanidade, mas um adversário que é preciso domar, dominar e submeter. A humanidade lança-se, sem dó nem piedade, à conquista dos elementos naturais, sujeitando-os às suas necessidades reais ou imaginárias ou até mesmo aos seus caprichos. Neste contexto cultural, a natureza não é já a grande aliada do ser humano, mas a que se opõe aos seus desígnios. Dominar a natureza, submetê-la ao poder humano, possuí-la até à medula, consumindo todo o seu potencial, são as grandes tarefas que a humanidade dita civilizada quer levar a bom porto. As consequências são devastadoras, tanto nas sociedades capitalistas ― no seio das quais o valor supremo não é a vida (humana ou não humana), mas o lucro, o ganho, a acumulação desmesurada e galopante de bens e valores económico-financeiros ―, como nas sociedades ditas socialistas, onde o sucesso económico se sobrepôs inelutavelmente à preservação do ambiente e, consequentemente, da vida humana.
Contudo, por mais que pretenda uma total autonomia em relação ao ambiente natural, o ser humano é um ser da e na natureza, necessariamente dependente dela, como todos os outros elementos que a compõem. A destruição do meio natural, levada a cabo pela avidez desmedida, revelou-se uma ameaça também para a sobrevivência da espécie humana. Se a natureza sucumbir às mãos da insanidade humana, arrastará consigo inevitavelmente a própria humanidade.
Impõe-se, por isso, um outro paradigma ético, antropológico e ambiental. Na verdade, o que são os elementos naturais? Serão apenas objetos que estão à disposição da vontade e dos caprichos humanos? Serão adversários que é preciso dominar? Serão meros recursos económicos que o ser humano usa para benefício do seu bem-estar material imediato? De acordo com os novos paradigmas filosóficos e ambientais, os elementos naturais devem ser percecionados como outro “eu”, como sujeitos e não objetos, como entidades com dignidade e valor. Os pássaros, os animais selvagens ou domésticos, mas também as florestas, os rios ou as montanhas são nossos irmãos[1]. A eles pertencemos como eles a nós pertencem. Com eles partilhamos o mesmo espaço vital. E é por isso que não são os interesses do ser humano que devem ser preservados em primeiro lugar, mas os interesses do todo, da totalidade do sistema-Terra.
Tal visão do mundo pressupõe uma reviravolta na forma de nos relacionarmos com todas as entidades que partilham connosco o mesmo planeta (e o mesmo universo). A cultura ocidental, de matriz cristã, via no outro que partilhava com ele a mesma natureza humana o seu próximo. De acordo com o evangelho de Lucas (10,29-37), Jesus terá contado a “parábola do bom samaritano” para explicar aos frios e empedernidos religiosos da época quem era, na sua perspetiva, o próximo de cada ser humano. Se os doutores da Lei impunham grandes restrições ao conceito de próximo (próximo seriam apenas os que pertencem ao mesmo povo, à mesma religião ou ao grupo dos que cumprem a Lei), Jesus vem alargar a todo o ser humano, independentemente da sua etnia, religião ou grupo social, a obrigação humana e religiosa de auxiliar quem necessita de ajuda. Foi, sem dúvida, um salto civilizacional incomensurável, no sentido do desenvolvimento de sociedades humanistas. Porém, no novo paradigma que agora se propõe, há que alargar ainda esta perspetiva, acolhendo como próximo todas as entidades, humanas e não humanas, que connosco constituem o mundo natural. O meu próximo é o animal ao qual roubámos o habitat, condenando-o à extinção. O meu próximo é o animal doméstico que eu abandonei. O meu próximo é o rio que outrora corria límpido e cristalino e agora tem as águas infestadas de dejetos, descargas tóxicas e lixo. Ao mesmo tempo que lutamos por uma vida digna para todos os seres humanos, não podemos esquecer que também os não humanos são dotados de dignidade. A sua vida é uma dádiva estética para o olhar maravilhado de todo o ser humano, é um valor ético que se impõe a toda a consciência bem formada.
Este novo paradigma constitui uma reaproximação às formas de pensar que, até há bem pouco tempo, numa atitude arrogante de supremacia cultural, considerávamos “primitivas”. De facto, na grande maioria das chamadas religiões primevas vigorava a crença segundo a qual não apenas o ser humano era dotado de “alma” ou “espírito”, mas também os animais, as plantas e até mesmo os “objetos inanimados” (pedras, montanhas, etc.). Tudo o que existe pertence simultaneamente ao mundo material e ao mundo espiritual. Não há, portanto, nesta ordem de pensamento, a divisão entre mundo meramente físico e mundo espiritual. A crença animista eleva todos os elementos da natureza à dignidade que só ao ser humano é reconhecida (infelizmente, nem sempre) no mundo tecnologicamente avançado.
O segundo tópico, de fundamental importância no que se refere à preservação da floresta e do ambiente, é o fenómeno da explosão demográfica que ocorreu a partir do início do século XIX. Durante milénios, o número de seres humanos variou entre cerca de 200 milhões e 1.000 milhões. Porém, o crescimento exponencial da humanidade, que se gerou a partir da revolução industrial (hoje somos mais de sete mil milhões), pôs em causa o equilíbrio ambiental. Por um lado, há que responder às necessidades alimentares de todos os seres humanos, o que exige níveis de produção agrícola e pecuária massivos, com a consequente desflorestação e aumento da poluição; por outro lado, as necessidades dos seres humanos têm vindo a alargar-se a bens e serviços que estão muito para lá das chamadas necessidades básicas. Se todos os seres humanos seguissem os mesmos padrões de consumo do mundo ocidental, precisaríamos de vários planetas para responder a todas as supostas necessidades. A par de uma educação para a frugalidade, é, pois, fundamental desenvolver políticas de contenção demográfica. E a única política eficaz e consentânea com os direitos dos cidadãos é a que resulta do investimento na educação. É um facto indiscutível que quanto maior forem os níveis educacionais das populações, tanto menor é a taxa de natalidade. Assim, o equilíbrio ecológico do planeta depende, em larga medida, do incremento da educação no mundo.
Um terceiro tópico prende-se com os incêndios florestais. O fogo é um fenómeno que sempre acompanhou a existência do planeta e a vida humana. Mas a intervenção do ser humano na reorganização das florestas (por exemplo, as monoculturas), aliada ao recente aumento da temperatura global, veio criar condições propícias para a existência de calamidades ambientais (e também económicas e humanas) derivadas da devastação das florestas pelos fogos.
Uma vez que o fogo não vai jamais deixar de existir ― e não seria sequer conveniente ou vantajoso que tal acontecesse ―, só há uma maneira de debelar os calamitosos incêndios: aprender a utilizá-lo através de soluções inteligentes já amplamente testadas. Os fogos controlados limpam as florestas do combustível essencial à proliferação de grandes incêndios, mantendo-as assim a salvo de toda a devastação funesta.
Em Portugal, as proporções dos incêndios são bem maiores do que no resto da Europa do sul. Não porque tenhamos mais incendiários… Na verdade, embora 90% dos nossos incêndios tenham mão humana, apenas 3% têm origem criminosa. Os restantes 87% decorrem de atitudes de desleixo, incúria e ignorância. Assim sendo, só a formação das consciências pode conduzir a alterações significativas nos perigosos comportamentos humanos e, consequentemente, à diminuição dos incêndios florestais.
O quarto e último tópico que me apraz referir é o da aliança entre economia, emprego e sustentabilidade ambiental. Habituados que estamos a encarar os interesses económicos em oposição aos interesses ambientais, é-nos difícil percecionarmos uma relação profícua entre os dois planos.
No início deste texto, referi o atual investimento nas energias renováveis e como tal investimento é útil ao desenvolvimento económico de uma dada região (e à consequente promoção de emprego), mas também à sustentabilidade ambiental. Quanto maior for a produção energética a partir de energias renováveis, menos necessária será a queima de combustíveis fósseis para a produção de energia. É certo que se perdem negócios, lucros e empregos na área dos combustíveis fósseis, mas tal perda poderá ser compensada com os ganhos que as novas formas de produção de energia poderão trazer.
Uma outra forma de aliar estas duas dimensões, geralmente em conflito, é o desenvolvimento da indústria corticeira. 35% do território nacional é ocupado por floresta e o sobreiro é a nossa segunda maior espécie. O povoamento de sobreiros ― o montado ― é altamente resistente ao fogo e um ecossistema importante na preservação do solo, na qualidade da água e na produção de oxigénio, bem como na preservação de uma rica biodiversidade. No montado convivem serenamente interesses económicos, ambientais e estéticos, uma vez que a sua beleza natural é procurada também para fins turísticos.
Mas a principal fonte de receitas advém da cortiça (a casca do sobreiro). Desde logo, oferece empregos rurais (embora sazonais) bastante bem remunerados, uma vez que a extração da cortiça do sobreiro é manual (não mecanizada). Mas a indústria corticeira, para além de promover o emprego, proporciona lucros avultados, sobretudo por causa do enorme volume de exportação de produtos cuja matéria-prima é a cortiça. E se há alguns anos atrás tais produtos se resumiam praticamente a rolhas e corticite para o chão ou outras superfícies habitacionais, atualmente produz-se uma multiplicidade de artefactos que ultrapassam largamente os usos tradicionais, promovendo também empregos qualificados nas áreas do design. Neste domínio, temos novamente a economia aliada à estética. Hoje não é raro ver produtos de alto valor estético produzidos a partir da cortiça: sapatos, malas, estojos, molduras, canetas, fios, anéis, gargantilhas, pulseiras, brincos, chapéus, cintos, carteiras, sacos, chapéus de chuva, móveis e tantos outros produtos. Trata-se de um caso de feliz aliança entre interesse económico e preservação ambiental, fomentando deste modo uma economia sustentável.
Que fazer então para fomentar nos homens e mulheres que moram connosco nesta casa comum que é a Terra? Só a educação pode trazer consigo resultados duradouros porque incide sobre os sistemas de crenças, os valores assumidos e os comportamentos que daí decorrem.





[1] Cf. “Carta do chefe Seattle” e “Cântico das Criaturas” de s. Francisco de Assis.

domingo, 14 de maio de 2017

Fátima e o papa Francisco

Francisco é, de facto, um renovador. E a sua ação reformista cumpre-se por meio de palavras ousadas, mas também através de gestos inusitados que decide realizar, contra ventos e marés. Neste sentido, é realmente um profeta, no verdadeiro sentido do termo. Um dos poucos homens do sistema que se comporta como tal. De um modo geral, o profeta encaixa-se mal nos sistemas de valores vigentes. É uma espécie de desmancha-prazeres, um crítico obstinado que não para de zurzir, com o látego das suas palavras e gestos, pessoas e sistemas demasiado instalados ou descarnados de vitalidade. Recusa curvar-se e submeter-se aos seus ditames seculares e anacrónicos, cujo sentido o tempo deliu. Prefere, antes, que um espírito transcendente, cujo eco se faz sentir no seu coração sedento, lhe segrede palavras, comportamentos e modos de ser que não deixarão de incomodar os paladinos da imobilidade social, cultural, religiosa ou pessoal. O profeta esgaravata no terreno da acomodação que tendemos a construir, para nossa suposta segurança. Perturba a nossa indolência preguiçosa. Rejeita a inércia e desassossega os instalados.
É assim Francisco. Logo desde o primeiro momento em que foi eleito papa. Não esperaríamos que fosse diferente agora que veio a Fátima. E se aqui canonizou as duas crianças que a morte prematura levou, não canonizou, decerto, todo o conteúdo, em parte obsoleto, da chamada “mensagem de Fátima”, tal como se encontra vertida nas “Memórias” da irmã Lúcia.
As visões e os segredos que esta mulher nos foi desvendando, inscrevem-se, em larga medida, na religião do medo, que a Igreja assumia nas suas catequeses e homilias. Sobre a pequenez desprotegida do ser humano, um deus parece rejubilar com o sofrimento e entregar, sem dó nem piedade, o pobre pecador ao pavor de um inferno cujas imagens Lúcia pintou, nas páginas que escreveu, como se fossem a mais estrita descrição de um quadro de Bosh.
Francisco está, pelo contrário, em sintonia com o Evangelho, nos antípodas deste tipo de religiosidade que elege o pecado, a culpa e o castigo como conceitos centrais na pobreza humana da sua teologia.
Para Francisco, Deus é essencialmente amor e misericórdia. A sua vontade benigna de acolher o pecador, por mais distante que esteja, é infinita. Nada há que fique fora da sua ação benevolente. E assim sendo, Francisco pede que nos empenhemos na “revolução” que a misericórdia e o perdão introduzem na nossa maneira de nos relacionarmos com Deus e com os outros. Somos chamados a ser sinais da “misericórdia de Deus, que perdoa sempre, perdoa tudo”. E a revolução da nossa forma de pensar, a conversão da nossa mente, é convidada instantemente a rejeitar o medo e o temor e a abraçar, sem rodeios nem subterfúgios, a força irrecusável da ternura e do carinho. E o papa sublinha ainda que a “humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes”. A lógica do Evangelho é o oposto da lógica do poder, da força bruta e da prepotência. É o triunfo da humilde condição de provedor dos outros. Daqui deriva que, nos mais diversos momentos da vida, cada um é convocado a “antepor a misericórdia ao julgamento”. “Em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”. Francisco recupera o tema fundamental do seu pontificado, pois é nele que vê espelhar-se o melhor que o Evangelho de Cristo veio trazer ao mundo.
Mas o papa não se fica por aqui. Interpela a consciência de todos os romeiros que se encaminham para Fátima, algumas vezes sob o impulso de motivações desprovidas de sentido. Defende, portanto, que Maria é bendita porque acreditou nas promessas de Deus e a ele se entregou inteiramente e não porque seja “a santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço”. Uma clara crítica à religiosidade das promessas, alicerçada numa relação comercial com o divino, como se Deus se dispusesse a negociar connosco o nosso próprio bem e não estivesse, desde sempre, empenhado na nossa salvação. Não faz sentido que a relação do crente com Deus se funde numa mera troca comercial de bens. Deus é o senhor de tudo. Que lhe poderíamos nós oferecer que não fosse já dele? Deus ama-nos desde toda a eternidade. Como nos atrevemos, pois, a considerar que lhe podemos comprar, a baixo preço, algum favor especial? Na verdade, aquilo que ele tem para nos oferecer não tem preço. E apenas porque é pura dádiva, estará ao nosso alcance. Por outro lado, de que precisaria Deus para ser mais do que já é realmente? A única oferta que Deus espera de nós é a oferta de cada um em prol de todos os seus semelhantes. A única oferta que Deus espera de nós é a decisão de amar os outros como nos amamos a nós mesmos. E neste ponto, Francisco não se cansou de referir a urgência de negarmos a indiferença do olhar e encontrarmos no bem dos outros a nossa própria realização pessoal. “Cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente”, “os excluídos e abandonados a quem negam o futuro”, exigem uma “mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar”. E conclui: “a vida sobrevive com a generosidade de outra vida”. Por isso, rezar a Deus é procurar que a humanidade escute as nossas súplicas e que não fique indiferente às privações que diante de Deus desfiamos. Cada ser humano é uma acendalha de esperança para os outros.
Também o papel de Maria terá de ser reconsiderado. O excessivo centralismo mariano do catolicismo deverá ceder o passo a uma visão mais equilibrada, na qual Maria existe em função de Jesus e este em função de Deus. É Cristo que é o centro da fé cristã. Ele é a esperança da humanidade divinizada. E se Maria introduziu os pastores no mar imenso da luz de Deus, foi para o adorarem. O centro da mensagem de Fátima terá, pois, de ser a presença divina na vida de cada crente como fonte de esperança e de coragem para enfrentar as adversidades.
E para todos os que pensam que Deus exige algum tipo de sofrimento voluntário, deliberadamente procurado, o papa refere que não é preciso subir à cruz para encontrar Jesus. Foi ele que se humilhou para nos encontrar. Não estamos sozinhos. Vivemos nele e com ele. Porque por piores que sejamos, não é ele quem nos abandona. Somos nós próprios que o rejeitamos no irmão doente, esquecido ou humilhado.

Por último, Francisco apela a que se descubra “novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”. Que belo programa para a Igreja de Cristo! Depois de décadas de apagamento gradual na sociedade moderna e contemporânea, talvez possamos agora esperar que esta comunidade de pecadores escancare os seus braços não apenas ao que supostamente cumprem leis, ritos e prescrições, mas sobretudo aos que os não cumprem e, ainda assim, ou talvez exatamente por isso, sentem que precisam de um ponto de orientação absoluto ao qual entregar a própria vulnerabilidade. Talvez possamos esperar, sob influência da proposta de Francisco, ver a Igreja virar as costas definitivamente àquele farisaísmo contra o qual Jesus falou e agiu. Assim bispos, padres, religiosos e leigos assumam este lado luminoso da vida que o Evangelho testemunha desde que Jesus o propôs.

domingo, 30 de abril de 2017

Amarra-os num saco!

Sábado passado, remexemos nas entranhas da casa da minha infância. Agora que a venda parece apressar-se temos de limpar o espaço de tudo quanto é pessoal e de tudo quanto nos convém guardar. E nesta constante azáfama, demos com objetos que dizem muito acerca das crenças da tia Lucília.
Os nossos antepassados, sobretudo analfabetos (que eram a esmagadora maioria), mantinham crenças ancestrais e, de algum modo, primitivas acerca de uma certa dimensão espiritual da vida. Muitos olhavam com indiferença para as instituições religiosas oficiais. Mas acolhiam acriticamente práticas fetichistas para saírem vencedores de alguma desconsiderada malapata ou para furtar o destino rumo a paragens que o livro da vida não havia registado. A minha tia não embarcava em todas as crendices, mas… pelo sim pelo não… convém não importunarmos os espíritos com o nosso ceticismo. Podem irritar-se pela desconsideração a que os votamos e exercer o seu direito oculto à vingança.
E Deus? Não seria suficiente para derrotar todas as pretensões destes perturbadores da ordem cósmica? Talvez. Se pensarmos um pouco mais profundamente, sem dúvida que sim. A sua omnipotência, a sua omnisciência e a sua bondade infinita garantem o sucesso do bem sobre as emboscadas do mal. Porém, Deus está lá no seu reino eterno, longe das nossas preocupações comezinhas. Pelo contrário, os espíritos (benignos ou malignos), aparentemente, sitiam a nossa existência. Vagueiam pelas ruas onde moramos, pelos becos onde o medo nos assalta, assediam impiedosamente as nossas almas, expostas que estão à fluidez do tempo e à insignificância da própria condição. Deus parece demorar a intervir. Quando o chamamos, raramente nos responde. E quando o faz, é tarde e às más horas. Entretanto já esses paladinos do mal se instalaram no coração da nossa vida tão precária. E o pior é que não nos libertam facilmente. Primeiro, sob a forma de mero receio, motivado por qualquer infortúnio ocorrido. Segundo, sob a veste do medo e, finalmente, sob os grilhões do pânico, gerador de avultada ansiedade. Mesmo que não haja espírito algum que nos possa incomodar, já estamos cativos da imagem deles que para nós engendrámos.
Que fazer então? Enquanto os evangelhos apelam à força da oração contínua, ou seja, à confiança no Deus de misericórdia que nos amou desde toda a eternidade, os nossos medos impelem-nos para os braços dos profissionais do além. Por convicção ou por mera conveniência financeira, tais pessoas cobram, a preço de ouro, as suas inúteis intervenções, visando desfazer a penosa condição a que estamos sujeitos por força desses supostos espíritos mundanos ou de alguém que os usou para nos algemar aos grilhões da morte.
No que me toca, não creio na existência de seres celestes, sejam eles benignos ou malignos, chamemos-lhes anjos, arcanjos, querubins ou demónios, diabos e satanás. Com uma única exceção: Deus. E se nos tempos que correm é já bastante difícil acreditar numa divindade, julgo dever ser ainda mais crer numa multidão de espíritos errantes que parecem não ter mais nada que fazer do que infernizar o juízo aos pobres humanos enquanto percorrem os acidentados trilhos da vida terrena. Mas a mente humana tem destas coisas inexplicáveis. No tempo em que a ciência reduz todas as explicações a causas meramente internas ao mundo, muitos lançam-se nas mãos de vigaristas e charlatães. Querem apenas recuperar a harmonia que perderam. Mas precisamos mesmo de recorrer a seres ultramundanos para explicar essa desarmonia que entretanto se instalou na nossa mente? Creio que nos bastam as tantas dificuldades da vida que a todos, mais cedo ou mais tarde, nos assolam.
Regressemos à perturbadora tarefa de esvaziar a casa da tia Lucília. Digo esvaziar no seu duplo sentido. Também eu saio um pouco mais vazio desta ingrata tarefa. Uma parte do que sou já se afundou com a sua morte. E resgatar aqueles objetos à casa que vamos abandonar é reviver essa perda indescritível. Porém, tudo isto tem de ser feito. Não há como escapar!
De forma sistemática, fomos avançando pelas várias divisões, esquadrinhando gavetas, armários e outros móveis. Quando chegámos à cozinha, abrimos as gavetas da mesa onde partilhámos tantas refeições e passámos a pente fino os vários objetos que lá se achavam. No fundo de uma das gavetas, bem embrulhados, estavam os enferrujados talheres dos meus bisavós. Nunca quis desfazer-se destes artefactos tão antigos quanto inúteis. Já ninguém come com talheres de ferro. Mas naquele embrulho não estavam apenas as facas, os garfos ou as colheres, estava também, e particularmente, a memória dos seus pais.
Parecia que havíamos retirado tudo dessa gaveta. Dei ainda uma vista de olhos pelo fundo sombrio, não tivesse ficado esquecido algum objeto pessoal. E de facto, lá bem no fundo, a um canto quase impercetível, estava ainda um objeto que por mero acaso nos tinha passado despercebido. Retirei-o. Era um pequeno saco de serapilheira amarrado com um atilho específico ao qual estava ligado um pequeno cilindro de madeira com formas esculpidas. Desatei o saquito e verifiquei se tinha alguma coisa lá dentro. Não. Estava vazio. Não tive a menor sombra de dúvida de que se tratava de uma qualquer bruxaria. Talvez o saco atado tivesse dentro, aprisionados, os espíritos que a haviam apoquentado e eu, imprudente como os companheiros de Ulisses, acabei por lhes dar carta de alforria. Não sei ao certo que significado tinha para ela, mas era decerto um sinal do seu respeito (e medo?) por tudo quanto não vemos nem ouvimos mas pode lá estar nesse misterioso mundo onde não nos é dado aceder.

Cá por mim, fico-me pela confiança nesse Deus que dá sentido à vida. Tudo o resto parecem-me simplesmente ficções geradas pelo medo de tudo quanto desconhecemos e nos pode ser hostil. Dir-me-ão que não sou tão radical como deveria, incluindo Deus também no rol de todas essas ficções. Talvez tenham razão. Mas não vejo como pode o universo e a vida humana fazerem sentido sem uma última explicação que não necessite ela própria de qualquer outra explicação.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Eleições à beira do abismo

Depois do desastre americano, também a França foi a votos. E esteve por um triz, quase a resvalar para a área tenebrosa da extrema-direita e do seu discurso racista, xenófobo e nacionalista. Há alguns anos, julgava que as nações estavam em vias de extinção. O futuro era o mundo como casa comum de todos os seres humanos. Hoje, sei que ainda não. Se aquilo a que assistimos não for apenas o seu canto de cisne, as nações afirmam-se como autoridades supremas.
Não me interpretem mal. Amo a minha pátria. Gosto de ter nascido no país em que nasci, ainda que lhe veja os defeitos colados ao meu destino. Mas esse fator emocional não me impede de saber que nenhum povo é filho de um deus menor. Sou inteiramente português, mas tal condição não faz de mim menos europeu ou menos cidadão do mundo. Sempre que penso nisto, relembro o poema de António Gedeão:
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
E nesta quintilha está tudo dito. De uma forma tão deslumbrante, que outras palavras apenas ofuscariam a sua luminosa mensagem. Como se pode compaginar tal visão universalista com a mesquinha afirmação do próprio eu ― seja ele pessoal, regional ou nacional ―, como valor supremo a que tudo deve vergar-se?
A globalização trouxe, sem dúvida, problemas à ordem estabelecida. Levou ao enriquecimento de alguns e ao empobrecimento de outros. Talvez tenha sido o Ocidente desenvolvido a sofrer de forma mais significativa o embate da necessária abertura das economias e das culturas e a consequente ascensão de outras civilizações. Mas essa não será razão suficiente para nos trancarmos no nosso egoísmo, enquanto expulsamos do nosso jardim todos os intrusos que não se inscreveram ou não puderam inscrever-se no nosso clube.
Podemos e devemos assegurar a integridade da vida humana nos limites das nossas fronteiras. Porém, não há nenhuma contradição entre esse esforço securitário, sobretudo face ao terrorismo dilacerante, e o reconhecimento efetivo dos direitos daqueles que ― não tendo nascido no espaço confinado das nossas fronteiras ou não partilhando connosco os mesmos valores religiosos ou não ostentando a mesma cor de pele ― têm exatamente a mesma dignidade que nós reivindicamos para os nossos filhos. É esta visão universal da vida humana, humanista até ao limite, que deve presidir, segundo creio, à relação entre pessoas e povos, sob pena de nos despenharmos na barbárie que outrora infestou as nossas sociedades.
Com as eleições em França, todos trememos. O que virá aí depois da saída anunciada do Reino Unido da União Europeia? Se já será penoso tal êxodo, como sobreviverá a União à fuga de uma das nações mais estruturais para o edifício europeu, como é o caso da França? Todos nos lembramos o que era a Europa das nações isoladas. As guerras, os interesses nacionais sobrepostos aos interesses dos povos, a insaciável avidez pelo poder, o egoísmo sem margem para a solidariedade entre cidadãos, entre povos e entre nações… O elenco dos crimes, das catástrofes e das mortes é demasiado extenso para caber em tão poucas linhas. Mas os volumes de historiografia estão repletos dessas narrativas sinistras para que fomos arrastados durante séculos de imaturidade civilizacional.
O medo é o pior conselheiro. Sempre que nos deixamos dominar por este sentimento tão necessário quanto arrasador, transformamo-nos em monstros, prontos a afiar as garras na pedra dos nossos ódios mesquinhos. Infelizmente, Marine Le Pen, com a sua despudorada demagogia, apela a esse fundo irracional que, de um modo geral, mantemos sob guarda nos calabouços da nossa mente. Contudo, despertado o monstro, não há barco que nos faça dobrar o cabo das tormentas. Somos arrastados para o abismo oceânico pela violência dos ventos que libertámos. Quem dera fôssemos realmente poupados a tal experiência abominável!

Parece que desta vez vamos sobreviver. Mas seria bom que os políticos do sistema tirassem as ilações necessárias e desta ameaça assustadora renascesse, autêntico e lúcido, um outro rosto da democracia. A Europa também tem de aprender com a lição. Não é por acaso que muitos franceses já não se sentem assim tão enlevados com a União a que pertencem. Não é por acaso!

sábado, 1 de abril de 2017

«A mancha humana»



Terminei hoje a leitura de uma das obras mais excecionais de toda a literatura que conheço: “A mancha humana” de Philip Roth. Este americano genial escreve com a mesma naturalidade deslumbrante com que se respira. Não há palavras a mais, não há palavras a menos. Tudo quanto escreve já estava gravado, desde sempre, no livro intemporal da vida. Bastava que alguém o revelasse. Por isso, na sua obra, nada sobeja. E de nada carece aquele palco de personagens consistentes, que se confundem com a própria realidade. Uma obra a não perder, para quem queira estar a par do que melhor se escreve no tempo que vivemos.
Eu diria que há um tema omnipresente: a mentira como sossego inquieto, como lenitivo irrecusável para a doença da vida num mundo “sadio” onde a negritude é o asco a evitar, o morbo a recusar.
Não havia grande alternativa de sobrevivência no arco de um tempo em que ser negro era simplesmente não ser, ou ser menor, ou não ter, aos olhos dos outros, a completude necessária dos construtores da história. Por mais inteligente que fosse, por mais nobre que fosse, como o fora o pai do protagonista.
Só havia, portanto, uma alternativa ao desastre de se perder no injusto esquecimento dos povos. Sim, de se perder na vacuidade do que não pode ser tido em conta, do que não existe, ainda que viva e se mova num quotidiano, por vezes heroico. É certo que o pai escolhera essoutro caminho: o da honesta assunção da própria condição de negro, arrostando assim com toda a humilhação que lhe estava colada à pele. Que ganhara ele com isso? Culto como fora, muito para lá da grande maioria dos que ostentavam a cor como privilégio indiscutível, acabara os seus dias a servir à mesa na carruagem-restaurante dos comboios onde se empregara, enquanto lhe bailavam na mente os versos geniais de Shakespeare. Que ganhara então ele?
Não. Não era essa a decisão certa. Se a mentira pairava sobre os valores de uma sociedade caduca (e não há maior mentira do que o preconceito feito carne), na qual o autor de Hamlet definhava enquanto servia à mesa de um comboio suburbano e muitos dos que eram servidos jamais tinham lido uma tragédia grega, quaisquer que fossem os meios usados decerto que estariam justificados. Teria de mentir? Mentiria. Teria de ocultar da mulher e dos filhos a sua verdadeira origem? Fá-lo-ia. Afinal, o que é realmente a verdade? Qual é a natureza específica da mentira? Conquistar com o suor do próprio rosto o lugar a que se tem direito não será mais autêntico e verdadeiro do que propagar a sete ventos, por orgulho ou valentia, a própria negritude?
É a história de uma tragédia humana vivida na América racista e segregacionista, na qual uma franja de cidadãos de pele clara, mas com ascendentes negros, decide renunciar às próprias origens familiares (e até ao contacto com a sua família alargada) para poder usufruir dos benefícios que a inteligência e as aptidões pessoais lhes podem proporcionar.
Parafraseando Martin Luther King, era uma sociedade onde se julgavam as pessoas ― e se distribuíam por gavetas sociais incomunicáveis ― a partir do critério da cor da pele e não da grandeza de caráter, do comportamento e dos méritos efetivos. E foi esta a grande tragédia humana que durante séculos assolou a história da humanidade, mantendo no estado de servidão, total ou parcial, uma fatia significativa de seres humanos. E ainda se não resolveu inteiramente, apesar de se terem dado passos consideráveis no reconhecimento da igualdade fundamental entre todos os seres humanos, independentemente da cor ou da raça.
Mais do que a tragédia pessoal da mentira em que laborou Coleman, o protagonista, este romance é o testemunho da tragédia infame de uma tal sociedade. Ele não é o herói negro típico que se assume portador de direitos, encabeçando, na sua condição efetiva, a luta pelos direitos cívicos, como Luther King fará até que o ódio e o preconceito vilmente o abatam. Coleman é o anti-herói que prefere renunciar a ser o que o nascimento dele fizera, condenando-se à expulsão voluntária do grupo sociorracial a que pertence, por forma a deslocar a fronteira da sua identidade para um terreno onde a coragem dos heróis não é necessária para alcançar o que antes lhe estava vedado.
Também ele terá de pagar um preço elevado. A negação de si mesmo é a negação do berço onde fora plasmado, a rutura com o passado onde se fizera homem e, simultaneamente, a construção da nebulosa relação, despida daquela intimidade que só a verdade pode outorgar, com a família nuclear que se escolhera, inteiramente destituída de passado.
Por último, terá de pagar com a própria vida. De alguma forma, o seu comportamento libertino ameaçara o malsão veterano de guerra que deixara no Vietname a sua sanidade. E assim, este romance é também um grito de revolta face a decisões políticas que tornam a vida de milhares de cidadãos perfeitamente insuportável. Ninguém que tenha passado junto ao ódio devorador da morte poderá sair incólume.
Lester, o veterano do Vietname, vive uma existência sem rumo nem significado. Já se extinguiu nos campos de morte por onde passara. É o seu cadáver que todos os dias se levanta, porque a alma, essa dissipou-a junto aos despojos, no inferno asiático para onde o governo o empurrara. E é assim que salpica de morte tudo quanto toca. Lester está para lá do bem e do mal. Só quem vive pode ter padrões éticos ou balizas morais. Lester morreu algures no passado e aí deixou esses limites a que a consciência outrora o obrigara. O que sobra agora é a secura mortal que o deserto da vida lhe serve, indiferente ao sofrimento. E quando este se ergue acima do suportável, o espetro ambulante desse homem esboroa-se numa espécie de serena insanidade que tudo arrasta para o fundo do precipício. E foi assim que Coleman e a sua amante sucumbiram às intrigas do desespero letal.
E novamente é obrigatório perguntarmo-nos o que é a verdade. Essa interrogação eterna cuja resposta cabal não está de modo algum ao nosso alcance. Mas podemos entrever, no meio do bulício das palavras enfadonhas, desertas ou mesmo difamatórias, um minúsculo atalho para o rosto disso a que chamamos verdade. Decerto lhe não descobriremos o corpo inteiro. Mas pequenas franjas do manto cerrado da noite hão de pender perante os nossos olhos.
A morte do protagonista é ensombrada por calúnias e vil difamação. Só o seu amigo sabe a verdade dos factos. Não que esteja nele a posse das provas ou que se veja na iminência de as restituir à luz do dia. Sabe com a clareza luminescente com que o coração conhece, sem o avisado consentimento da razão. Por isso, luta pela sua desocultação, pela derrota dessa torrente de maledicência tenebrosa que enlameia a memória do seu amigo. Sabe que não havia nele essa perversidade que outros insistem em atribuir-lhe, esse ódio visceral, esse desejo irresistível de vingança. Estava simplesmente na vida como quem a ama. E pretendia gozá-la até ao fim. Apenas isso!
E talvez fosse isso mesmo que tornara a vida desse homem tão odiosa. Despertava, na sua sadia postura perante as coisas, inveja e ciúme. Não há nada pior para um invejoso do que ver a felicidade dos outros desdobrar-se sobre a miséria da sua incapacidade para usufruir da vida.

sábado, 11 de março de 2017

«O segredo que os corvos guardam»

         Hoje foi a apresentação do romance do João Gil. Eis aqui o texto que serviu de apresentação do mesmo:




É costume dizer-se que uma pessoa só está realmente completa depois de ter escrito um livro, ter plantado uma árvore e ter tido um filho. De filhos, o meu amigo João já tem dois, pelo que já está duplamente completo. Quanto a árvores, desconheço se já plantou alguma, mas está sempre a tempo de o fazer. Julgo que o adágio se aplica também a simples bonsais, pelo que pode fazê-lo na pacatez do seu lar. Entretanto, brindou-nos com este romance. Pode finalmente suspirar de alívio por ter ultrapassado a barreira que todo o ser humano tem diante de si e só um pequeno punhado consegue alcançar.
Com isto não estou a propor que goze os seus dias à sombra do que já concluiu, como se a sua missão estivesse realizada em toda a sua plenitude. Na verdade, a missão de cada ser humano só se cumpre realmente no último momento da vida. Assim, o meu amigo João não tem de decretar a reforma e deixar que a preguiça tome conta do seu tempo. Bem pelo contrário, dado que o primeiro ensaio superou as expectativas, há que continuar recorrendo ao tesouro inesgotável da criatividade humana e dar à luz novos textos que possam iluminar e dar alento à triste monotonia do quotidiano.

Para quê perder tempo a conceber um texto literário? Terá algum valor humano a arte de transferir para a língua escrita os sonhos que vamos tendo? Na minha opinião, escrever um livro é enriquecer o património imaterial da humanidade com um pequeno ou grande contributo, consoante a valia do que se escreve. Para lá do interesse financeiro que o escritor possa ter (na verdade, muito dificilmente o seu trabalho será realmente recompensado financeiramente), o ser humano vive de histórias. As grandes narrativas da humanidade propõem valores (e não falo apenas de valores éticos, mas também de outros valores), expõem o melhor e o pior do ser humano, estimulam o leitor a pensar sobre comportamentos e atitudes, exibem o caos e a desordem moral que se propagam pelas sociedades e pode igualmente propor uma nova ordem social, política, económica, etc. A literatura sempre foi uma arma potente nas mãos de quem a usa. As ditaduras bem o sabem quando proíbem e censuram textos libertários ou quando condenam ao exílio, ao cárcere ou à morte os que ousam pensar e escrever livremente.
Não se julgue que a literatura serve apenas para entreter ou para passar o tempo. É certo que há literatura que tem como primordial objetivo o entretenimento, mas mesmo essa, ao capacitar as pessoas para a leitura, torna-as mais competentes no acesso à cultura e ao pensamento crítico. Sou testemunha de que o livro do meu amigo João também faz pensar, para além de ser uma divertida história de mistério.
Enfim, sem literatura, o mundo ficaria mais pobre, mais triste e menos belo.

O que dizer de «O segredo que os corvos guardaram»? Antes de mais nada, gostaria de o recomendar a todos. Não é um livro complexo. Escrito numa linguagem cuidada mas claramente acessível ao grande público, este romance tem ingredientes que o tornam atrativo. Desde logo, a ideia de um mistério a desvendar. Um mistério que se adensa e cujo véu se vai momentaneamente erguendo para deixar passar certos vislumbres através de pequenas pistas. Mas até deste ponto de vista, a história é surpreendente. Evidentemente não vou expor aqui o seu final, mas direi apenas que o mistério se revela ao mesmo tempo que se esconde do olhar do leitor. E mais não digo sobre o assunto.

Nota-se também uma clara preocupação do autor em inserir na parte descritiva do texto uma série de referências históricas e culturais importantes. O texto assume-se como transmissor de cultura histórica. Mas ao mesmo tempo que pretende ser veículo cultural, fá-lo aligeirando o peso do conhecimento académico. No fundo, transforma uma pesada feijoada numa espécie de objeto gastronómico bastante mais digerível.
Até mesmo numa situação algo hilariante, o narrador não perde oportunidade para desfiar alguns dados histórico-culturais. Enquanto os protagonistas são perseguidos por criminosos, todos os acontecimentos se desenrolam a grande velocidade. Na pressa da fuga, os fugitivos entram numa dada pastelaria bem conhecida de Lisboa, colidindo com os empregados. E enquanto voam pastéis de nata e bandejas se estatelam no chão, no meio de uma azáfama inconformada de clientes e empregados, o narrador não perde oportunidade para atrasar a cena dando oportunas informações históricas sobre a restauração da independência, ocorrida a 1 de dezembro de 1640.
Esta preocupação pela informação histórico-cultural é já um motivo válido para agradecermos ao autor o seu esforço como escritor.

Fazendo uso de um narrador que não intervém na história (heterodiegético), quase tudo se passa no plano das ações e dos comportamentos visíveis. A narrativa assume uma perspetiva quase cinematográfica. Tudo o que acontece é posto diante do leitor como realidade acessível à visão. De uma forma geral, as personagens não discorrem acerca do mundo interior onde proliferam e se digladiam pensamentos, crenças ou sentimentos. É em larga medida através dos seus comportamentos e das achegas do narrador que nós ingressamos no universo subjetivo de cada personagem.
Uma vez por outra, o autor recorre à técnica da analepse (flashback) para caracterizar as personagens que entretanto surgem em cena. E a forma como elas vão surgindo é igualmente digno de nota. As vicissitudes das personagens são narradas de forma alternada. Inicialmente, desconhecemos a relação que elas terão umas com as outras. Só mais à frente se há de perceber em que moldes se relacionam e de que maneira essa relação vai ser fundamental para o evoluir dos acontecimentos. A técnica narrativa usada é interessante, uma vez que deixa o leitor na expectativa de ulterior informação que até ali não lhe é dada. O autor termina muitos capítulos no auge da ação, deixando para ulteriores desenvolvimentos a conclusão dos acontecimentos, aumentando assim o interesse do destinatário do texto em prosseguir a leitura. Aliás, um outro aspeto bastante interessante é o facto de os capítulos serem, em geral, de dimensão reduzida. Nunca percebi efetivamente qual o interesse de prolongar um capítulo desmesuradamente. Sem dúvida que dificulta a leitura.
O estatuto social e profissional das personagens evidencia o momento histórico em que vivemos. Gente que alcançou altos níveis de capacitação académica vê-se a braços com a impossibilidade de integrar uma profissão adequada ao nível cultural e aos conhecimentos adquiridos. É o problema do desemprego jovem, é o problema da desadequação dos cursos ao mercado de trabalho, é o problema do desinvestimento das sociedades atuais em saídas profissionais nas vertentes do conhecimento humanístico e das ciências sociais. Inevitavelmente, perguntamo-nos se não estamos a condenar as sociedades a um afunilamento de perspetivas e, portanto, a um empobrecimento de pontos de vista.

Sem dó nem piedade, o autor põe a nu problemas da sociedade portuguesa que afetam largamente o seu funcionamento. Desde logo, a questão do subfinanciamento da investigação científica e os problemas com que se debate este setor crucial para o desenvolvimento do país e para a sua projeção mundial. Também se alude aos problemas do financiamento bancário a projetos económicos com alguma margem de risco. Se os bancos acodem rapidamente a projetos cujo risco é quase nulo, retraem-se no financiamento de projetos inovadores com margens de risco mais elevadas, atirando assim para a vala do esquecimento comum ideias empreendedoras que poderiam contribuir para a renovação económica de uma sociedade.

Também há personagens que procuram noutros campos profissionais a sua realização porque não reconhecem nos seus atuais empregos o ambiente onde possam ser felizes. Ainda que os salários possam ser tentadores, há aspetos éticos que se levantam na atividade profissional que podem tornar difíceis, senão insuportáveis, as relações laborais. Consciências eticamente sensíveis dificilmente estão disponíveis para recorrer a toda e qualquer estratégia que vise conseguir níveis sempre mais elevados de lucro, sem atender à violência desumana que se exerce sub-repticiamente sobre os clientes. Se procurar o lucro é legítimo, já não o será fazê-lo de qualquer forma e feitio. Os fins não justificam os meios. Infelizmente, podemos assistir todos os dias, através das notícias diárias que irrompem pela paz dos nossos lares, ao triunfo do mais soez maquiavelismo. Quando o que está em jogo é avultado, parece não haver limites ao comportamento humano. Para quê dar ao cliente a informação toda de que necessita para poder decidir, se posso ocultar a parte menos favorável dessa informação e levar o cliente a embarcar em negócios que podem revelar-se ruinosos?
Neste ponto, coloca-se também o inevitável problema da obediência. A quem devemos nós obedecer em primeira instância, quando os conflitos éticos se agudizam? Ao superior hierárquico ou à própria consciência? Podemos hipotecar a própria liberdade em nome da mera obediência cega a uma autoridade exterior que impõe uma dada conduta? Por outro lado, estaremos dispostos a suportar as danosas consequências de preferirmos seguir os ditames da consciência moral às ordens superiores? Podemos delegar no outro a decisão final sobre o que está bem e o que está mal? A história diz-nos que não. Jamais seremos justificados se nos deixarmos conduzir pelas instâncias de poder, abdicando de todo o espírito crítico e autonomia moral. Os únicos verdadeiramente responsáveis pelos atos que praticamos, tenham sido eles realizados sob a égide da própria vontade ou sob a estrita ordem de uma autoridade exterior, seremos sempre nós mesmos.
Hoje vivemos em sociedades sofisticadíssimas, com as quais os nossos antepassados trogloditas nem podiam sequer sonhar. Mas do ponto de vista moral, continuamos a guiar-nos pela mesma ordem selvática. Com uma agravante, enquanto eles eram pressionados por uma forte vigilância social, nós hoje diluímos tanto os laços sociais que ninguém se sente impelido a buscar o bem da comunidade quando o interesse individual é posto em causa.
A crítica a comportamentos humanos sobressai também quando se observam os níveis de exploração económica a que estão sujeitos os trabalhadores do setor da hotelaria, sobretudo no que se refere ao prolongamento excessivo dos horários de trabalho. Noutra vertente bem diferente, o texto assume um papel crítico face à exposição pessoal nas redes sociais e à possibilidade de tais informações poderem ser usadas por pessoas sem escrúpulos e mal-intencionadas. E é o próprio que, por ingenuidade ou desconhecimento da natureza humana, expõe a sua intimidade em praça pública, enquanto espera que do outro lado ninguém que aceda a tais informações as use para fins tenebrosos.
De forma menos gravosa, mas igualmente reprovável, alude-se aos favores e cunhas para obtenção de empregos, em troca de vantagens específicas. Ou a obtenção de certos lugares cimeiros não por mérito ou competência, mas por outras razões menos dignas.

O submundo do crime entra em ação como oponente em relação aos protagonistas. E não nos causa qualquer perplexidade que a criminalidade se guie por princípios que nada têm que ver com a ordem ética. Há outros interesses que impelem à ação, associados no romance à extensão da plataforma continental e à exploração económica dos fundos marinhos.
Os criminosos de grande calibre veem a sua identidade protegida dos olhares indiscretos do público porque habitam para lá de toda a suspeição. São os donos disto tudo: os que movem as pessoas como peças de xadrez, ao sabor discricionário da sua vontade omnipotente. Habitam espaços e tempos para lá do bem e do mal. Regem-se por obediências cuja identidade desconhecemos, embora possamos suspeitar. E afinal, o criminoso miúdo, aquele que salta para a liça de arma mão, aquele que rouba, maltrata, sequestra e assassina mais não é do que um mero peão no jogo do mundo, empurrado por forças realmente poderosas que escapam quase sempre ilesas. Também no crime, a arraia-miúda pode ser dispensada e, quando necessário, eliminada. A violência usada na relação com os outros virar-se-á, então, contra o homem violento, porque quem aceita o princípio da força no relacionamento interpessoal não pode esperar senão a aplicação do mesmo princípio em relação a si mesmo.

A história que este romance conta expõe igualmente uma série de relações afetivas atribuladas, mas recheadas de densidade humana. Desfiam-se relatos de relações desfeitas, de filhos desejados mas que se recusam a nascer, de conflitos interpessoais motivados por desentendimentos a que os problemas financeiros não são completamente alheios. Tudo isto é agravado ainda pelo eterno problema da incompreensão entre géneros, que aflora aqui ou ali na superfície do texto.
O conflito de valores e perspetivas de vida transparece também na narrativa. E aqui refiro-me ao conflito motivado por visões do mundo distintas: uma sob a orientação de valores morais bebidos no contexto do cristianismo de matriz católica e outra inteiramente alheia a tais constrangimentos. Uma das personagens, impelida por uma visão religiosa do mundo, concebe a legitimidade das relações sexuais apenas como manifestações do amor; a outra centra a sua atuação em torno do princípio do prazer inteiramente independente do amor.
No contexto do conflito de valores, o autor não se coibiu de expor no seu romance uma família tipologicamente alternativa, no sentido em que não se enquadra no esquema tradicional de família. Duas personagens femininas partilham a vida, sendo que uma está grávida. Trata-se, sem dúvida, de um tema escaldante. Mesmo as sociedades ocidentais, livres e democráticas, só agora estão a admitir alternativas aos modelos familiares que nos foram legados pela tradição judaico-cristã. Não admira que uma das personagens argumente desfavoravelmente com a ordem natural das coisas, supostamente quebrada em relações homoafetivas, e com a necessidade da criança ter também um pai, como se ter duas mães e nenhum pai fosse uma aberração da natureza.

O romance termina numa tonalidade enternecedoramente patriótica. É quase um apelo a que todos os que se reveem no país onde nasceram ou escolheram viver abandonem a letargia em que têm vivido e se lembrem de quem são, para projetar no futuro a sua própria identidade mais profunda.
Obrigado, João, pelo romance que aqui nos deixas.

Lisboa, 11/03/17

Jorge Paulo